Por Flávio Gikovate – Médico Psiquiatra – Revista Cláudia, dezembro de 1994.
 
“O amor corresponde às sensações de paz, harmonia e completude que sentimos ao lado de outra pessoa. É alguém especial, escolhido segundo critérios de admiração (e outros que nem sempre compreendemos), e que se transforma na figura substituta da mãe, nosso primeiro amor. Do amor adulto esperamos coisas muito parecidas com as que esperávamos de nossa mãe. O amado terá de estar presente nos momentos de aflição, nos dar segurança, atenuar nosso desamparo. Em resumo, terá que preencher nosso “buraco”.
 
A única novidade é que a isso se acrescenta o sexo, nova fonte de inseguranças, ciúmes e incertezas. Ou seja: a relação torna-se mais possessiva e exclusivista do que era a da criança com a mãe. O vocabulário romântico é indicativo disso: chamamos de “benzinho”, “lindinho” – e em tom de voz idêntico ao que usamos para falar com crianças. Aliás, se os bebês falassem, também diriam à mãe: “Você é maravilhosa”, “Sem você eu não viveria” etc.
 
Ao longo da vida, conhecemos várias pessoas. Com algumas nos encantamos; com uma, esse encantamento se torna especial. É a eleita, a amada. Na prática, será a encarregada de, com sua presença e atitudes, atenuar nossa sensação de incompletude. Ela será a guardiã do meu “buraco”. E eu, do dela. Quer se queira, quer não, esse caminho leva à dominação recíproca – ainda que, na aparência, um seja o dominador e o outro, o dominado. Por amar, as pessoas se julgam com direitos especiais sobre o outro. O amor “autoriza” isso, pois o amado não pode deixar de acudir quando o “buraco” exigir. Se vou trabalhar, não preciso de minha mulher. Ao voltar para casa, porem, preciso dela lá, senão me sinto incompleto e inquieto, exatamente como a criança que volta da escola e não encontra a mãe.
 
Tudo isso se resume numa palavra, que sempre ouço e invariavelmente me irrita: cobrança! Por amar, as pessoas se sentem com direito de cobrar tudo: presença, comportamentos, o que o amado deverá dizer, hora de chegar em casa, de dormir, atividade sexual. Até gente sem tendência autoritária se torna cobradora. Não acredito que haja gosto nesse desgaste inútil de energia. Não se trata de prazer, mas de necessidade. Na medida em que mandam, e são obedecidas, as pessoas se sentem com o “buraco” preenchido. Qualquer desobediência, e lá está ele de volta. E com acusações ao parceiro, responsável por isso. Aliás, o parceiro surge como causador do “buraco”, como se este nunca tivesse existido e fosse resultado da decepção sofrida! Na verdade, o amor existe por causa do “buraco”, e não o contrário.
 
Para o que se espera delas, até que as relações de amor são pouco tumultuadas. Poderia ser pior, já que se tratam de dois adultos que se sentem crianças, esperando proteção do parceiro, que está em igual condição.
 
Vamos ver agora o que acontece com as relações de amizade as pessoas que nos encantam, e não se transformam na amada, tornam-se nossas amigas. Gostamos de sua presença, de conversar. Confiamos nelas e lhes confidenciamos coisas que não diríamos à amada, por medo de perdê-la. Partilhamos intimidades e sentimos tanto prazer em sua companhia quanto o que vivenciamos no amor.
 
A grande diferença, a meu ver, é que os amigos não existem para resolver o meu desamparo: não é dever deles tapar meu “buraco”, embora sua simples presença possa ajudar muito. Porém, como não me devem nada, nada posso lhes cobrar. E o que acontece, então? Essas são as relações mais sadias que conhecemos: intensas, duráveis, baseadas em confiança, companheirismo e ajuda recíproca. A presença dos amigos nos encanta. Sua ausência não nos mata de saudades. Só “vicia” a relação que existe para preencher o meu “buraco”. A ausência amorosa dói como a falta do cigarro para um viciado. A ausência do amigo é sentida, mas não dói.”
 
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 Gikovate é um homem muito sábio mesmo. Talvez um dos poucos psiquiatras que respeite (depois explico o porquê dessa ‘cisma’).
  Acho que esse texto resume bem o que sinto sobre o Amor. Muita complicação para algo tão simples. E de boa, tenho muitos problemas emocionais  pra lidar e não tô afim de ‘tapar o buraco ‘ de ninguém atualmente, xô carência!
 
 *Texto retirado do blog Mulher de 40.